Eu não vou começar este texto dizendo que entendo o que você sente, porque cada ansiedade tem a sua cara, o seu tamanho, a sua hora de chegar. Mas vou começar com uma cena que talvez seja parecida com alguma sua: são duas da manhã, o quarto está escuro, todo mundo dormindo — e o meu coração está batendo como se houvesse um perigo real, mesmo sabendo que não há. Eu tento orar e as palavras não vêm. Tento respirar e o ar parece preso no meio do caminho. E aí, no meio daquilo tudo, vem o pensamento que machuca mais do que a própria ansiedade: “Se eu tivesse fé de verdade, será que eu estaria sentindo isso?”
Essa pergunta me perseguiu por muito tempo. Eu cresci ouvindo, de forma sutil, que a ansiedade era um sintoma de fé fraca. Que se a gente orasse mais, lesse mais a Bíblia, confiasse mais, o coração sossegaria. Então, quando a ansiedade bateu na minha porta — e ela bateu com força, num momento específico da minha vida que eu ainda vou contar aqui —, eu fiz o que muitas de nós fazemos: escondi. Escondi dos outros, escondi de mim mesma e, no fundo, tentei esconder de Deus, como se ele fosse me olhar com decepção.
A verdade que demorei anos para aceitar
A verdade que eu demorei anos para aceitar é mais simples e, ao mesmo tempo, mais libertadora: a ansiedade não é falta de fé. Ela é uma resposta do corpo. O nosso sistema nervoso foi desenhado para nos proteger. Quando ele entende — muitas vezes errado — que estamos em perigo, ele dispara um alarme: o coração acelera, a respiração fica curta, os músculos se tensionam. Isso é fisiologia, não é pecado. É o nosso corpo tentando nos manter vivas. E quando vivemos um luto, uma perda, um período de medo constante, esse alarme fica ligado sem necessidade. Ele esquece de desligar.
Eu sei disso hoje porque estudo e trabalho com isso. Mas na época da minha própria tempestade, eu não conseguia enxergar nada disso. O que eu via era só: “Deus está em silêncio e eu estou desmoronando”.
A minha história com a ansiedade
Deixa eu te contar o que aconteceu comigo. Eu perdi um filho. Não vou entrar em detalhes aqui — talvez um dia eu escreva sobre isso com mais calma —, mas a perda de um filho muda o chão da gente. Depois dela, a ansiedade veio morar comigo. E o que mais me assustava não era o medo em si; era a sensação de que eu estava sendo julgada por Deus por não conseguir “confiar”. Eu orava e chorava, e o céu parecia de concreto. Eu lia a Bíblia e as palavras pareciam de outra língua. Eu ia à igreja e saía pior do que entrei, porque lá dentro todo mundo parecia tão inteiro, tão resolvido, tão cheio de paz.
Foi nesse buraco que eu aprendi as coisas que hoje eu gostaria de ter aprendido antes. E são essas coisas que eu quero dividir com você — não como uma receita pronta, porque não existe, mas como quem já esteve no fundo e sabe que a gente pode atravessar.
O que me ajudou a atravessar
Parar de brigar com o que eu sentia
A primeira coisa que me ajudou foi parar de brigar com o que eu sentia. Eu tinha o hábito de me repreender: “não devia estar com medo”, “não devia estar assim”. Cada repreensão era como jogar gasolina na fogueira. Quando eu finalmente aprendi a dizer — com todas as letras, diante de Deus: “eu estou com medo, estou exausta, estou com o coração acelerado e não consigo controlar” —, algo mudou. Não que a ansiedade sumiu na hora. Mas ela deixou de ter o poder do segredo. O que a gente nomeia, a gente consegue olhar de frente. E olhar de frente é o começo de qualquer cura.
Acalmar o corpo antes de acalmar a alma
A segunda coisa foi entender que eu precisava acalmar o corpo antes de tentar acalmar a alma. Parece contraintuitivo para quem é cristã — a gente tende a pular direto para o “espiritual”. Mas o nosso corpo e a nossa mente estão profundamente conectados. Se eu não respiro, se eu não durmo, se eu vivo em alerta, nenhuma palavra de fé vai encontrar lugar dentro de mim. Hoje, quando sinto aquele aperto chegando, eu não tento “orar a ansiedade embora” à força. Eu respiro devagar, coloco a mão no peito, e vou repetindo uma oração curta, dessas de uma frase só: “Senhor, eu estou aqui. Segura a minha mão.” Só isso. Às vezes é só isso que a gente consegue. E isso basta.
Os salmos que me ensinaram a gritar
A terceira coisa foi encontrar os salmos de novo. Eu sempre li os salmos como se fossem poesia bonita. Mas os salmos são outra coisa: são gritos. São pessoas reais dizendo para Deus coisas que a gente tem medo de dizer. “Até quando, Senhor? Até quando?” — isso está na Bíblia. “As minhas lágrimas são o meu alimento de dia e de noite” — isso também está na Bíblia. Descobrir que o lamento é uma forma legítima de oração foi um alívio enorme para mim. Eu não precisava chegar diante de Deus perfeita e calma. Eu podia chegar do jeito que eu estava: desgrenhada, chorando, com o coração disparado. E ele não se afastava de mim por causa disso. Ele nunca se afastou.
Buscar ajuda também é fé
E a última coisa — talvez a mais difícil de aceitar para muitas de nós — é que buscar ajuda não é falta de fé. É cuidado. Eu sou psicóloga e, ainda assim, precisei de uma psicóloga para mim. Precisamos de alguém do lado de fora, que não esteja envolvido na nossa história, para nos ajudar a enxergar padrões que sozinhas não enxergamos. A terapia não é um substituto da fé. Ela é uma ferramenta que Deus também pode usar — assim como o médico, o remédio, o amigo. Achar que “só Deus” basta é, muitas vezes, uma forma disfarçada de orgulho. Foi libertador quando eu entendi que podia aceitar ajuda sem sentir que estava traindo minha confiança em Deus.
Conclusão
A ansiedade pode até roubar suas noites, mas ela não precisa roubar a sua relação com Deus. Você pode estar ansiosa e crente ao mesmo tempo. Pode chorar e confiar ao mesmo tempo. Pode pedir ajuda e orar ao mesmo tempo. O Deus que ouviu os salmistas gritando no escuro também ouve você — mesmo quando você não encontra palavras, mesmo quando o seu coração é a única oração que você consegue oferecer.
Se você está lendo isso agora com o coração apertado, eu quero que você saiba uma coisa: você não está atrasada, não está fraca, não está sendo punida. Você está numa fase difícil, e fases difíceis passam. A fé não elimina a dor — mas ela nos sustenta dentro da dor. Ela não nos tira da tempestade, mas segura o nosso barco enquanto a tempestade passa.
Se você tem vivido com ansiedade e sente que precisa conversar com alguém que entenda a travessia entre a psicologia e a fé, a minha porta (e o meu WhatsApp) está aberta. Vamos conversar com calma, sem julgamento. Você não precisa passar por isso sozinha — e, na verdade, ninguém deveria. Clique em “Atendimentos” e me chame. Vou te ouvir.
