O que fazer quando Deus parece silencioso

Há uma pergunta que atravessa a vida de quem crê e que quase ninguém tem coragem de fazer em voz alta: “Deus, onde você está?” Eu fiz essa pergunta muitas vezes. Não daquele jeito bonito, de quem busca a Deus com o coração puro num momento de devoção. Fiz do jeito feio: de joelhos no banheiro, com o rosto molhado, sem conseguir parar de repetir — “eu sei que você existe, eu sei que você me ama, mas por que você não fala comigo?” O céu não respondia. E esse silêncio doeu mais do que a dor que me levou até ali.

Eu perdi um filho. E depois daquilo, eu descobri uma coisa que ninguém me contou: depois de uma perda grande, a gente espera que Deus venha com uma resposta, com um sentido, com alguma explicação que faça a vida voltar a fazer sentido. Mas ele não veio com nada disso. Ele veio com silêncio. E eu passei meses — talvez anos — interpretando aquele silêncio como abandono. Como se Deus tivesse olhado para a minha dor e decidido ficar de longe. Como se a minha fé não fosse suficiente para merecer uma palavra dele.

Se você está lendo isso e está passando por um tempo assim — um tempo em que a oração parece batida numa parede, em que a Bíblia parece um livro qualquer, em que a igreja parece um lugar onde todo mundo entende menos do que você —, eu quero te dizer, primeiro, que você não está sozinha. Esse é um dos lugares mais comuns e mais silenciados da vida cristã. A gente fala muito de montanhas e muito pouco de desertos. Mas o deserto existe. Ele é bíblico. Ele é real. E — isso é o mais importante — ele não significa que Deus foi embora.

O que aprendi no meu deserto

Deixa eu te contar o que eu aprendi no meu deserto.

O silêncio de Deus não é ausência

Aprendi, primeiro, que o silêncio de Deus não é ausência. É outra coisa. Há um salmo que começa com um grito desesperado: “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” E é curioso — esse é o salmo que Jesus citou na cruz, no momento mais escuro da história. Jesus, o próprio Filho, experimentou o silêncio do Pai. Ele não foi poupado disso. E se ele não foi, por que a gente esperaria ser? O silêncio de Deus não é um castigo reservado aos fracos. Ele faz parte da caminhada de quem crê. Ele é, de certa forma, um lugar sagrado — um lugar onde a fé deixa de ser sentimento e vira decisão.

No silêncio, Deus trabalha em nós

Aprendi, segundo, que no silêncio Deus não está trabalhando contra nós, mas talvez esteja trabalhando em nós. Eu sou psicóloga, então eu penso nessas coisas também por esse lado: quando tudo ao nosso redor fala, quando todo mundo tem opinião, quando a vida é um barulho constante, a gente raramente se encontra com a própria alma. O silêncio de Deus muitas vezes é o único espaço onde a gente finalmente para de buscar respostas fora e começa a olhar para dentro. Não é que Deus esteja escondido. É que a nossa alma, no meio do barulho, não conseguia ouvi-lo. No deserto, não há para onde correr. E é ali que a gente descobre que, mesmo sem ouvir, a gente continua de pé — e isso já é uma resposta.

No silêncio, a oração muda de forma — e está tudo bem

Aprendi, terceiro, uma coisa que eu gostaria de ter aprendido muito antes: no silêncio, a oração muda de forma, e está tudo bem. Eu passei muito tempo achando que oração era falar — e que, se eu não tivesse o que dizer, minha oração estava fracassando. Mas no deserto eu aprendi a orar de outros jeitos. Aprendi a orar ficando em silêncio, só sentada na presença de Deus, sem pedir nada, sem entender nada. Aprendi a orar escrevendo — e eu escrevia cartas para Deus dizendo tudo o que eu não conseguia dizer em voz alta. Aprendi a orar chorando, porque o choro também é oração. Aprendi que o salmista, quando não tinha palavras, dizia: “Como o cervo anseia por águas, assim a minha alma anseia por ti” — e o anseio, em si, já era uma oração. Você não precisa de palavras perfeitas para se aproximar de Deus. Você precisa apenas de presença — a sua, ainda que trêmula.

Quando a sua fé está em silêncio, deixe-se carregar

E aprendi, por último, uma das coisas mais importantes da minha vida inteira: quando a gente não consegue crer por si mesma, a gente pode ser carregada pela fé dos outros. Houve dias em que eu não conseguia orar. E eu tenho uma amiga que orava por mim. Eu sabia que ela orava. E aquilo me sustentava de um jeito que eu não consigo explicar racionalmente. Na minha casa, eu também vivi isso de outro lado: o meu esposo passou por uma luta longa e escura contra a depressão, e houve noites em que a fé dele era um fio — e eu segurava a ponta por nós dois. A comunidade existe exatamente para isso. Quando a sua fé está em silêncio, deixe que a fé de alguém ore por você. Vá à igreja mesmo sem vontade. Conte para uma amiga de confiança. O corpo de Cristo é isso: um carrega o outro. E ninguém é obrigado a atravessar o deserto com a própria fé como única provisão.

Conclusão

Eu não vou te dar uma fórmula de sete passos para “destravar” o céu, porque eu não acredito mais nessas fórmulas. O que eu posso te oferecer é o que funcionou para mim — e o que tem funcionado para tantas mulheres que sentam na minha frente, no consultório, com essa mesma pergunta no olhar. Continue aparecendo. Continue sendo honesta com Deus — ele suporta a sua honestidade, ele prefere o seu grito ao seu silêncio fingido. Continue na companhia de gente que crê. E descanse numa verdade que não depende do que você sente: o silêncio de Deus não é a última palavra. Ele nunca é.

O silêncio de Deus é um dos mistérios mais dolorosos da fé — e também um dos mais formativos. Ele não significa abandono; significa, muitas vezes, que Deus está trabalhando onde a gente ainda não consegue ver. Enquanto o céu parecer mudo, continue de pé: ore do jeito que você consegue, deixe-se carregar pela fé dos outros e lembre-se de que o silêncio é uma estação, não o destino final. A voz de Deus pode demorar, mas ela nunca falha em voltar.

Se o silêncio de Deus tem pesado em você — seja por um luto, uma espera, uma luta que não termina —, eu gostaria de caminhar um trecho com você. Às vezes a gente só precisa de alguém que segure a ponta da fé enquanto a nossa descansa. Como psicóloga e como alguém que já viveu o deserto, eu posso te ouvir sem julgamento. Me procure na página de Atendimentos. Você não precisa atravessar isso sozinha.

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